Quarta-feira, Maio 18, 2011

Ultimamente, apetece-me voltar a escrever.



Começar por onde?

Quarta-feira, Agosto 19, 2009

" "Génio" é a marca registada do produto quando passa a estar à venda"

- Wilhelm Reich

Sexta-feira, Abril 03, 2009

O meu vizinho do quarto andar...

Tema proposto pelo professor de Escrita e Narrativa como trabalho para uma página.


Das coisas que mais me marcou quando eu vivia naquela casa, um pequeno apartamento, numa rua estreita perdida nos arredores de Coimbra, foi o meu vizinho do quarto andar. Não do esquerdo nem do direito, pois no prédio apenas havia uma casa por piso. Eu era um miúdo de quinze anos que crescia, em plena adolescência, pelas escadas daquele prédio e ruas daquele bairro. No entanto, nunca me hei de esquecer da figura imponente do meu vizinho. Ele era alto, forte, com um bigode digno de um agente da GNR e a cara com rugas, marcada por uma vida dura. Geralmente, para não dizer quase sempre, via-o vestido com a roupa do trabalho. Ele era servente, e como tal calçava umas botas velhas e gastas, vestia umas calças de ganga pretas, já quase cinzentas devido aos salpicos de tinta e cimento de dias de trabalho sem fim, e uma camisola branca de “manga à cava” que parecia um maiot por cima da enorme barriga. Sim, é verdade que o seu aspecto não era mais que o de um comum pedreiro, mas o que me marcava mais na figura dele era o constante ar suado, com os olhos a ferver em álcool e bigode ensopado. Subia a escada aos “ésses” enquanto cantava musicas de outros tempos, que me deixavam sempre surpreendido pelo vocabulário de inglês que ele possuía. Toda a gente do prédio se queixava do barulho que fazia a cantar, até o senhor Alfredo, um veterano do ultramar que havia ficado meio surdo devido ao barulho das armas. Era incomodante, devido à regularidade, mas o pior era nas noites em que chegava a casa chateado por algum motivo e discutia com a mulher. A minha mãe acolhia de imediato os seus dois filhos, que desciam a escada com medo e lágrimas nos olhos por não reconhecerem o pai naquelas alturas, e eu entretia-me a distrai-los com brincadeiras que a minha mãe me fazia quando eu era criança, para que não percebessem que o pai batia na mãe. Disfarçava o barulho com música. Foram várias as vezes que a PSP bateu naquela porta, mas havia sempre uma desculpa, se não era por ter batido numa esquina, era por ter caído na banheira, nunca havia razão para intervirem diziam os agentes quando passavam por nós nas escadas. O habitual. Ainda assim, aquele comportamento agressivo sempre me pareceu esquisito. O sr. José Carlos sempre fora bem educado comigo e com os meus e tinha um ar sempre sereno, quando eu me cruzava com ele nas escadas ao raiar do dia quando me dirigia para a escola e ele para “pegar ao trabalho”. Perguntava-me sempre se a vida me corria bem, e dizia sempre para eu pensar bem nas escolhas que tivesse que fazer, para não me arrepender de nada. Dizia que se assim fosse eu iria ter um futuro risonho. Dizia-o com um certo brilho nos olhos. Nunca me arrependi de nada. Certo dia vinha eu a chegar de um treino qualquer de futebol, e deparei-me com o sr. José sentado nas escadas do prédio, no lancil mesmo antes da minha porta, com a cara coberta de lágrimas. Perguntei se estava tudo bem e ele pediu-me que me sentasse ao pé dele. Nesse dia não tinha bebido, e estava com um ar mais leve que o habitual. Sem eu dizer uma única palavra, pois nem tão pouco sabia o que dizer, começou a falar. Falou-me da sua infância, da sua mãe, da primeira namorada, dos inúmeros trabalhos de Verão que teve durante a adolescência, e do curso superior de Inglês que queria ter tirado se tivesse seguido os estudos até à Universidade. Disse-me adorar o Inglês. Eu não percebia como alguém com tantos sonhos podia ter a vida que ele tinha. Não conseguia sequer proferir uma palavra. Contou-me que amava a sua esposa, que nunca se lembrava das alturas em que lhe batia, que nunca havia levantado a mão aos seus dois filhos, e que bebia para esquecer. Mas para esquecer o quê? Falou-me de como foi caricato a escolha dos nomes para os dois pequenos, o João e a Mafalda, um esquema qualquer entre nomes de familiares falecidos e listas telefónicas, e depois falou-me do seu pai. Disse o seu nome e calou-se por momentos. Quando ganhou coragem, contou-me que o pai, desempregado por opção, lhe batia todos os dias, a ele e à mãe, quando era pequeno. Aos doze anos, tirou-o da escola para trabalhar por falta de dinheiro para o álcool. Pô-lo a trabalhar nas obras. Onde mais? Perdido em lágrimas e por fruto de um crescimento assim, disse-me que se havia tornado o espelho do próprio pai. Pediu-me desculpa, levantou-se e entrou em casa. Naquela noite houve silêncio. Na manhã seguinte quando saia de casa para a escola, ouvi uns soluços no cimo das escadas, e subi para ver o que se passava. A dª Rosa tinha a Mafalda no colo, que chorava “baba e ranho” enquanto ela chorava em silêncio. Olhou para mim com um ar triste, e eu retribui um olhar condescendente. Esticou-me a mão e passou-me uma folha de papel, com a letra do srº José, que apenas dizia: “Um dia voltarei uma pessoa melhor.”.

Terça-feira, Março 17, 2009

Eu lembro-me do aroma, que sentia e me envolvia, quando passava naquela casa. Por entre raios de Sol que me disfarçavam a vista, daquele ar de vivenda velha, com ar de quem pouco tratava dela, através do matagal a que outrora foi dado o nome de jardim, olhava para aquela porta como uma criança estupefacta, perdida na inocência da própria idade. Era capaz de ficar sentado horas a olhar para aquela porta, mas aguardava ansiosamente cada segundo que passava, à espera que ela se abrisse. Abria-se sempre. Lá de dentro chegava o tal aroma que me deixava estupefacto, que me fazia perder os sentidos e a noção do tempo, que me levava para o seu mundo com um sorriso preso na cara. Preso num sorriso sem tempo. E viajava por momentos, e por momentos sentia-me fora do próprio corpo. Por momentos eu era apenas ar, que viajava ao lado daquela fragrância, à velocidade de um suspiro. Eu, num momento de um suspiro. Nunca percebi bem porquê, mas cada vez que a porta se abria, a própria rua mudava de tom, as cores ficavam mais vivas, o céu ficava mais claro, e o barulho da cidade tornava-se silencioso perante os barulhos da natureza. O que sentia naqueles momentos era uma plena harmonia com o mundo mas, acima de tudo, também comigo. Paz. O problema sempre foi quando a porta fechava, o aroma cessava, a rua voltava a ser pintada em tons de cinzento e o céu se tornava mais escuro, bem como o barulho ensurdecedor da cidade voltava ao seu volume normal. Lentamente a luz dava lugar à treva, e eu nunca sabendo bem como encarar esse facto, mantinha-me no mesmo lugar olhando a porta escura na esperança de ouvir o trinco. Passavam-se minutos...e nada, nem um som, nem um silvo. O único caminho que tinha agora era de costas para essa porta, pela rua escura e molhada, pelo alcatrão gasto pelo atropelamento diário dos carros. Lembro-me de meter os phones nos ouvidos, e pensar que era hora de ir para casa...

Quinta-feira, Fevereiro 26, 2009

Tenho o mundo todo nas mãos. Esta foi a frase que ouvi vezes sem conta durante toda a minha vida. Tenho o mundo nas mãos, posso fazer tudo, posso fazer o que quiser. Tenho o mundo nas mãos. Mas também tenho preguiça. Não é que não queira, mas às vezes perco-me no ócio da vida quotidiana que me envolve. Pergunto-me, porquê? Sinceramente não sei, há quem diga que é feitio, há quem diga que é manias, há quem diga que é parvoíce. E então eu pergunto, será que há quem não critique?

Sexta-feira, Fevereiro 13, 2009

É hoje. Hoje é o dia em que te tiro do corpo. Tiro-te porque preciso, tiro-te porque precisas, tiro porque tenho que te tirar. Será que quero? Não quero saber mais esta resposta, pois tantas vezes me impediu. A mim impediu-me, mas tu foste. Partiste. Não partiste por mim, não partiste por ti, partiste porque teve de ser. Teve de ser. Não havia outra forma. Partiste e eu engoli seco, porque de nada valiam as lágrimas no momento. De nada valiam suplicias e palavras. Palavras. Sei que não mudei, sei que não mudaste, mas penso em ti, e sei que também pensas em mim. Pensas porque tudo foi algo sem explicação, e cada pedaço que tirei de mim ficou retalhado em ti para mais tarde recordar, sendo esquecido pelo tempo. Sei que teve de ser, no fundo sempre soube que terminaria desta forma. Sempre soube. Mas soube. Nada podia ter feito. Não me arrependo do tempo que gastei, porque não o classifico como tempo gasto, pois foi tempo em que me deixei levar pela magia dos sentimentos. Mas sei que partiste. E o mundo mudou. Eu não. Tu não. O mundo. Tudo perdeu a policromia que juntos criamos com atritos e afectos, palavras e olhares. Tudo é cinzento agora. Quero gritar. Mas não contigo. Quero gritar. Mas não consigo. Quero gritar. Mas sei que não vai alterar nada. E eu fugi. Fugi porque tinha que fugir, e rompi os laços. Rompemos os laços. Corri até deixar de sentir as pernas, corri até sentir o sabor férreo do sangue, na respiração da minha boca. Não sei quanto tempo, mas corri. E dizias tu que eu era forte. Talvez seja. Talvez não. Mas naquele momento, soube que tinha que fugir. Se calhar, talvez por ser forte. Sei que fugi. O que não sei é se já cheguei onde queria chegar, pois nem tão pouco sei se é possível lá chegar. Guardo cada pedaço teu na recordação. Pedaços de sorrisos e risos que me deste a mim e eu a ti, e pedaços dos pequenos pormenores que privávamos o mundo de os conhecer. E depois de toda uma história, sei que o ar já não é tão fresco como era, que o Sol já não ilumina como iluminava, e que a noite já não é mágica como foi. Mudou. O mundo. O foco que eu seguia desvaneceu até cessar e perdi a noção de para onde me levo agora. Mas tiro-te do corpo. Sei que serei sempre a Lua que te ilumina o caminho na noite escura, mesmo que apenas por um pedaço de tempo. A ultima memória antes de cair no mundo do sono. Tirei-te do corpo. Tiraste-me do corpo.

Segunda-feira, Fevereiro 09, 2009

Apeteceu-me escrever, pois hoje perdi a noção dos factos. Hoje quando acordei senti-me liberto. Não é que estivesse completamente bem, pois sentia que ainda devia muitas horas àquela cama,mas parecia que me tinham tirado vinte quilos de cima dos ombros. Não reparei como, não vi quando, mas talvez numa conversa, talvez num olhar, ou se calhar entre um suspiro... Rasguei a realidade em que vivo, e vivi para lá das minhas preocupações. Hoje, finalmente, o universo está em equilibro, na parte que me toca. Não sei como será amanhã, nem sei como será no dia seguinte, mas se que cá estou...e amo cada momento que passa...




24/01/2009